Música -Mediadora das Aprendizagens

Resumo

Muitas são as formas de aprender em um ambiente escolar. Educadores comprometidos com o processo ensino aprendizagem, utilizam várias Teorias da Aprendizagem para contribuir com o desenvolvimento de seus alunos. Questionar o Currículo Escolar, buscando criar novas formas de ensinar e aprender é um caminho valioso para o alcance de ótimos resultados. Porém para que o aluno aprenda de forma significativa é necessário que haja envolvimento e prazer nas atividades escolares, e uma forma interessante de se alcançar este objetivo seria através de Projetos Interdisciplinares. Tais Projetos devem envolver toda a comunidade escolar: pais, alunos, professores, secretários, equipe de apoio e membros da comunidade. E com certeza a utilização das aulas de Música conectando com estes Projetos, oportunizará uma aprendizagem ampla, prazerosa, inclusiva, significativa e estimuladora da criatividade dos alunos.

Palavras Chave:  Música , Mediação ,Aprendizagem.

 

INTRODUÇÃO

Enquanto muitos pesquisadores da educação buscam trazer para seus escritos as experiências, ou as práticas ou fazer experimentos para comprovar as teorias em estudos, este artigo segue o sentido inverso. Diante de uma necessidade vivida pela escola em estudo, que chamaremos de “E. Experimental Inclusiva”, este artigo busca trazer a luz da teoria uma valiosa experiência. Ao final será feito um breve relato desta experiência utilizando a Música como aliada do desenvolvimento dos alunos.

Não diferentes dos inúmeros ambientes escolares de que temos conhecimento, observamos no dia a dia uma necessidade , um desejo iminente por parte de todos envolvidos na comunidade escolar. Necessidade de um processo escolar desafiador , estimulante, significativo e ao mesmo tempo que atenda às expectativas mercadológicas e globalizadas do mundo atual. E hoje com elemento ainda mais instigante e desafiador que é a inclusão escolar. E foi neste contexto que percebemos o interesse dos alunos pelas atividades que envolve a Música.

O prazer dos alunos em participar de atividades com música, nos mostrou que talvez, este seja um excelente caminho para atender as expectativas ali presentes.
Ao nos depararmos com tantos desafios, expectativas, anseios e desejos, nos vimos impulsionados a criar, implantar, executar , experimentar, projetos que atendam tais expectativas e minimizem tais anseios .

É neste contexto que pensamos na possibilidade de desenvolver Projetos que permeiem todas as disciplinas , utilizando a música como mediadora das aprendizagens. De uma forma simples, envolvendo toda a comunidade escolar, juntamente com o professores de Artes, Polivalentes, Educação Física, Línguas… foi possível traçar metas para a execução de respectivos projetos. A iniciativa , a princípio não objetivou apresentar a abrangência do projeto interdisciplinar envolvendo música em sua totalidade, porém, apresentou claramente que o envolvimento da equipe é o que verdadeiramente nortearia concepções e diretrizes para um vislumbre mais objetivo e amplo.

Tendo como referência a Base Nacional Comum Curricular , documento elaborado com base nas Leis e Diretrizes Bases da Educação (LDB, Lei nº 9.394/1996), foi possível nortear as propostas , promovendo a relação entre as disciplinas, ou seja, a interdisciplinaridade. A BNCC, estabelece conhecimentos, competências e habilidades que soma-se aos propósitos que direcionam a educação brasileira para a formação humana integral e para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
Decidir sobre formas de organização interdisciplinar dos componentes curriculares e fortalecer a competência pedagógica das equipes escolares para adotar estratégias mais dinâmicas, interativas e colaborativas em relação à gestão do ensino e da aprendizagem (BRASIL, 2017, p.12).

Certamente a participação dos alunos na decisão de quais atividades realizar, as retomadas necessárias em muitos momentos, é que garantiram a chegada ao final do processo com a certeza de que é possível trilhar um excelente caminho desde que haja cooperação entre os envolvidos.
Para realizar tal projeto, foi imprescindível trazer a luz teorias que apoiassem e respaldassem a importância de caminhar juntos, tanto a teoria quanto a prática. Descobriu-se então o quanto podemos nos beneficiar da teoria ,e o quão valiosas são as confrontações e o anseio de continuar trilhando por este caminho de forma segura e eficaz.

A metodologia utilizada para corroborar com este artigo, elucida muitas dúvidas, trazendo esclarecimentos importantes. As pesquisas bibliográficas e eletrônicas, experiências vividas por educadores e escola, o constante diálogo com os envolvidos no cotidiano escolar, contribuem efetivamente para este estudo: o aprendizado através da Música.
Neste TCC encontramos algumas definições essenciais ao assunto, como : As questões do Currículo Escolar, As ressignificações do processo ensino aprendizagem, Os benefícios da Interdisciplinaridade e dos Projetos, o valor da Aprendizagem Significativa para a trajetória dos alunos, Aspectos da Inclusão escolar, Benefícios da Música para o Cérebro, a Música e a Neurociência e etc…

É evidente assim como este , projetos pedagógicos desenvolvidos pelas escolas apresentam resultados preciosos , frutos de uma trajetória cheia de experiências com o Ensino da Arte. Educadores que envolvidos com o Ensino das Artes, área em que uma das Linguagens é a Música, lendo, estudando, acompanhando as aprendizagens através da arte, vão sendo revelados resultados excelentes, reforçando assim a compreensão dos processos significativos de aprendizagem. Estas evidências nos faz acreditar que através do Ensino da Arte-Música é possível a cada envolvido, uma visão ampla dos diversos caminhos para o domínio do saber, seja no que diz respeito as diversas áreas e disciplinas, aos conhecimentos cognitivos, sociais , éticos e outros que ainda não conseguimos ter a devida noção.

É de grande importância que os Educadores de Artes , façam valer de sua formação para valorizar a Linguagem Musical em sala de Aula , utilizando-a como aliada em sua prática , aplicando os conceitos da Artes de forma Integradora. Como observamos na BNCC, ao tratar do ensino de Arte, ela apresenta cinco unidades temáticas em que estão citadas as quatro linguagens artísticas: teatro, dança, artes visuais e música, ampliando também para as Artes Integradas. Os encaminhamentos sugeridos no documento propõem que as linguagens artísticas sejam trabalhadas em suas particularidades ou na relação umas com as outras, estabelecendo caminhos interdisciplinares entre as várias expressões artísticas.

Ainda que, na BNCC, as linguagens artísticas das Artes visuais, da Dança, da Música e do Teatro sejam consideradas em suas especificidades, as experiências e vivências dos sujeitos em sua relação com a Arte não acontecem de forma compartimentada ou estanque. Assim, é importante que o componente curricular Arte leve em conta o diálogo entre essas linguagens, o diálogo com a literatura, além de possibilitar o contato e a reflexão acerca das formas estéticas híbridas, tais como as artes circenses, o cinema e a performance. (BRASIL, 2017, p.196)

 

PENSANDO A EDUCAÇÃO

Para compreender a maneira como se dá a educação, faz-se necessário pensar as suas diversas faces. Precisamos pensá-la em sua dimensão informal e formal2.
A educação é um fenômeno que tem uma de suas origens nas famílias com suas respectivas especificidades , com suas culturas, estruturas , expectativas e necessidades. Porém seus processos se desenvolvem também em outros níveis:

Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais … Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.(LDB 9394/6)

A criança com sua estrutura familiar, envolta em uma educação informal, tão importante e primordial para sua história, chega então, para continuidade de sua formação em uma escola, para então participar de um processo formal de educação. Processo este que sofre tantos desafios, na expectativa, dentre tantas outras , de proporcionar a esta criança uma educação de qualidade em toda sua plenitude. A escola por sua vez vive dilemas, desafios internos como necessidades especiais dos alunos, capacitação dos educadores, etc… e externos como expectativas dos pais, da sociedade, a ideologia dominante.

…o currículo deve ultrapassar o caráter impositivo, verticalizado, centralizado e pensado nos gabinetes, que fica à margem dos debates que envolvem os professores , alunos e comunidades, resumindo-se a um simples documento vindo a se unir aos demais documentos que integram as gavetas das escolas.(Lima,Zanlorense,Pinheiro,2011.p.31)

Neste contexto o Currículo deve buscar, não se inibir em refletir sobre suas práticas e as teorias propostas pelas academias , em busca de oferecer um processo ensino aprendizagem significativo para seus alunos, não deixando de lado a função social da escola. Como diz Pinheiro:

…os envolvidos no processo educativo podem realizar um trabalho pedagógico pautado na verdadeira função social da escola: a formação da consciência humana por meio de acesso aos conhecimentos elaborados pelos homens…. (2010,p.18)

PENSANDO NO CURRÍCULO

Neste aspecto vê-se a necessidade de os educadores pensarem sobre um tema importante : o Currículo. Pois ensinar e aprender, não é algo que pode ocorrer sem sua devida sistematização. Este percurso necessariamente deve ser organizado com objetivos claros, reais e significativos.

O conhecimento histórico, social e cultural da educação, em suas diversas facetas é importante neste momento, para que possibilite aos educadores uma meta inovadora e transformadora.

Elaborar um currículo é…compreender a organização escolar como um instrumento que deve auxiliar a estruturação social e cultural. É perceber que a escola é parte integrante da sociedade e não uma instância dissociada da vida real, e possuidora de propósitos insignificantes aos interesses coletivos. É disponibilizar aos educandos conhecimentos para que possam atuar como cidadãos conscientes de seu papel, cujos direitos e deveres são iguais a todos. Por isso, entender o significado, a importância e o poder político na constituição de um currículo se torna fundamental para o educador.(Lima,2011,p.100)

 

A palavra currículo vem do latim curriculum significa ,ato de correr; atalho, corte; Parte de um curso literário; As matérias constantes de um curso. Segundo Dicionário Básico da Língua Portuguesa Aurélio. Pensando no currículo escolar como o ato de correr. Esta corrida precisaria ser analisada pelos educadores sob diversos aspectos: como correr? pra onde? De que maneira? Com que segurança? Quem fará parte desta corrida? Orientado e dirigido pelo que , ou por quem? Com qual objetivo?

Dentro destes questionamentos , surge a ideia de realização de uma experiência , um desafio em uma escola que também aceitasse a proposta de uma abordagem interdisciplinar , utilizando a Música como mediadora das aprendizagens. Chamaremos esta escola de E.E “Escola Experimental Inclusiva”. Ao final deste artigo serão abordados alguns tópicos desta experiência realizada , nesta escola , tendo como referência a pesquisa feita aqui . E uma das características desta Escola é justamente a flexibilidade do Currículo, o que logo de princípio, viabilizou e validou a pesquisa em questão.

 

O surgimento de uma educação inclusiva implica uma flexibilidade pedagógica e curricular no sentido de modificar atitudes tradicionais e romper preconceitos. Para tanto, faz-se necessário criar ambientes acolhedores para que as diferenças individuais não se tornem motivos de qualquer tipo de discriminação que redunde na desigualdade de direitos e oportunidades. .(Lima,Zanlorense,Pinheiro,2011.p.122)

 

Nos escritos propostos nesta pesquisa, sobre o Currículo4, encontramos uma grave crítica sobre as limitações impostas pelo mesmo, sobretudo em escolas de Ensino Regular, mas talvez a necessidade que deveria nos mover é:-Quais as nossas limitações quando o assunto é „O Currículo‟?

Certamente observamos e até muitas vezes somos envolvidos nos principais aspectos que permeiam esta questão do currículo. A formalidade norteia nossa prática e nos dá as diretrizes para elaboração de planos e metas. Não há como fugir da realidade, do dia a dia em que professores e alunos dividem espaços, atividades idéias e ideais. Mas de tudo que vivemos , o mais desafiante são as intenções e necessidades ocultas. Como diz Lima (2011,p.123): “…devemos pensar na escola rompendo com o modelo apenas instrutivo e transmissor de informações”. O que , muitas vezes, trazemos internamente de nossas próprias trajetórias. Fazer valer estas intenções, de maneira pessoal, egoísta é que pode nos desviar do verdadeiro objetivo da escola, que é alcançar uma aprendizagem, plena, significativa e coletiva. Uma escola preparada para todos, para a diversidade, para as diferenças. Eis aí um desafio para cada um de nós Educadores, sobretudo aqueles que vislumbram uma educação Inclusiva.

Nos escritos propostos nesta pesquisa, sobre o Currículo4, encontramos uma grave crítica sobre as limitações impostas pelo mesmo, sobretudo em escolas de Ensino Regular, mas talvez a necessidade que deveria nos mover é:-Quais as nossas limitações quando o assunto é „O Currículo‟?
Certamente observamos e até muitas vezes somos envolvidos nos principais aspectos que permeiam esta questão do currículo. A formalidade norteia nossa prática e nos dá as diretrizes para elaboração de planos e metas. Não há como fugir da realidade, do dia a dia em que professores e alunos dividem espaços, atividades idéias e ideais. Mas de tudo que vivemos , o mais desafiante são as intenções e necessidades ocultas. Como diz Lima (2011,p.123): “…devemos pensar na escola rompendo com o modelo apenas instrutivo e transmissor de informações”. O que , muitas vezes, trazemos internamente de nossas próprias trajetórias. Fazer valer estas intenções, de maneira pessoal, egoísta é que pode nos desviar do verdadeiro objetivo da escola, que é alcançar uma aprendizagem, plena, significativa e coletiva. Uma escola preparada para todos, para a diversidade, para as diferenças. Eis aí um desafio para cada um de nós Educadores, sobretudo aqueles que vislumbram uma educação Inclusiva.

 

a)contra um saber fragmentados em migalhas,pulverizado em uma multiplicidade crescente de especialidades,em que cada uma se fecha como que para fugir ao verdadeiro conhecimento; b)contra o divórcio crescente ou esquizofrenia intelectual,entre uma universidade cada vez mais compartimentada, dividida, subdividida, setorizada e sub setorizada, e a sociedade em sua realidade dinâmica e concreta,onde a “verdadeira vida” é percebida como algo complexo e indissociável .(…);c)contra o conformismo das situações adquiridas e das “idéias recebidas” e impostas.

Assim percebemos as reais limitações em que o currículo se impõe e a necessidade eminente de um novo olhar, um “desafiante olhar”, por parte daqueles que acreditam num processo de aprendizagem mais significativa. Alfredo Veiga Neto , fala sobre o perigo das limitações que o currículo oferece. Segundo ele precisamos olhar o currículo e perceber algo além ou através do que nos é apresentado, ou pelo menos devemos perceber a necessidade intrínseca no mesmo.

currículo não deve ser entendido e problematizado numa dimensão reduzida à epistemologia tradicional, mas deve ser entendido como um artefato escolar cuja invenção guarda uma relação imanente com as ressignificações” que são no mundo social e, conseqüentemente, no mundo da cultura, aí incluídas, é claro, as ressignificações do espaço e do tempo (Veiga-Neto, 2002a, p. 167).

 

A contextualização, a observação das expectativas dos envolvidos no processo ensino aprendizagem deve ser uma constante. E propostas que atendam a tais expectativas, alcançando objetivos além dos que estão a mostra, e que certamente permite o ampliar da visão de mundo e o aguçar do senso crítico de cada aluno.

Temos o privilégio de conviver com uma diversidade maravilhosa. Sabemos que tudo que temos em nosso país em termos de cultura é o que nos difere do mundo todo. Como educador ,vejo que é isto que precisamos passar para nossos alunos: a valorização de nossa cultura. Estar atento às ideologias impostas nos Currículos , com um “cuidadoso olhar crítico” , como diz Macedo(2017):

..precisamos questionar as formas diferenciadas como as normas precarizam nossa existência sem abrir mão da precariedade que nos constitui. Esta é a tarefa de uma teoria curricular comprometida com a alteridade, por em questão os seus próprios fundamentos. (Macedo,2017,p.551)

 

Um dos maiores cuidados que o professor atual deve ter em sua prática, é a imposição da ideologia. Embora, vivemos em um mundo moderno, globalizado, embora fazemos parte de um grupo que estuda, investiga, explora, corremos o risco de ceder as mazelas da educação que recebemos, ou daquela que nossos parceiros receberam. Em discussão com outros educadores ,não é rara a diversidade de experiências, depoimentos de colegas, que deixam ,se não explícita, implicitamente , transparecer a reprodução de um processo de aprendizagem com pouca significatividade. E é muito bom provocarmos tais discussões, pois nos ajuda a refletir e a transformar nossas aulas, em uma verdadeira oportunidade de aprendizagem significativa, e não na continuidade de reprodução da ideologia. Este talvez seja um desafio para nós, que felizmente estamos tendo acesso a estas pesquisas. Assim teremos a possibilidade de vencer as limitações e preparar aulas mais criativas, valorizando as expectativas dos alunos e a ruptura das barreiras da alienação.

INTERDISCIPLINARIDADE e a MÚSICA

Para entendermos o termo interdisciplinaridade precisamos partir do que se entende por disciplina. O que é disciplina? O que entendemos desta simples palavra? Esta noção é fundamental para que se possa entender a teoria da Interdisciplinaridade.

Segundo a o Dicionário Michaelis, “disciplina” é a área de conhecimento ensinada ou estudada em uma faculdade, em um colégio e sua origem tem a mesma etimologia da palavra “discípulo”, que significa “aquele que segue”. Também é um dos nomes que se pode dar a qualquer área de conhecimento estudada e ministrada em um ambiente escolar ou acadêmico. Geralmente diz respeito a uma Ciência ou Técnica, ou subderivados destas. Aqueles que seguem uma disciplina podem assim ser chamados de discípulos. Um grupo interdisciplinar compõe-se de pessoas que receberam sua formação em diferentes domínios do conhecimento (disciplinas) com seus métodos, conceitos, dados e termos próprios.

Interdisciplinaridade, segundo o Dicionário Informal significa: Processo de integração recíproca entre várias disciplinas e campos de conhecimento. Constitui uma associação de disciplinas, por conta de um projeto ou de um objeto que lhes sejam comuns.

Ao pesquisar sobre este tema encontramos outras terminologias que podemos citar aqui para ampliar, esclarecer ,dar maior entendimento sobre o conceito de interdisciplinaridade. São elas: – Multidisciplinaridade é justaposição de disciplinas diversas, desprovidas de relação aparente entre elas. Ex.: Música + Matemática + História. -Pluridisciplinaridade é a justaposição de disciplinas mais ou menos vizinhas nos domínios do conhecimento. Ex.: domínio científico: Matemática + Física. Transdisciplinaridade é resultado de uma premissa comum a um conjunto de disciplinas (Ex.: Antropologia considerada como a ciência do homem e de suas obras.)”

O que há em comum nestas palavras é a palavra disciplinaridade/disciplina, que deve ser entendida como aquelas “fatias” dos estudos científicos e das disciplinas escolares, tais como matemática, biologia, ciências naturais, história, etc… Assim, interdisciplinaridade é parte de um movimento que busca a superação da disciplinaridade.

Embora encontra-se diversas definições do termo, pesquisadores tem a preocupação de nesta busca, cometer-se o erro de delimitar esta definição e não chegar ao seu entendimento mais profundo (Fazenda,2009.pág.30)

 

…O caminho interdisciplinar é amplo no seu contexto e nos revela um quadro que precisa ser redefinido e ampliado. Tal constatação induz-nos a refletir sobre a necessidade de professores e alunos trabalharem unidos, se conhecerem e se entrosarem para, juntos, vivenciarem uma ação educativa mais produtiva.

 

Na prática a interdisciplinaridade é um esforço de superar a fragmentação do conhecimento, tornar este relacionamento com a realidade e os problemas da vida moderna. Muitos esforços têm sido feitos neste sentido na educação. Na ciência, por sua vez, os esforços estão na busca de respostas, impossíveis com os conhecimentos fragmentados de uma única área especializada.

Com a ampliação da aplicação da interdisciplinaridade na ciência, tem se desenvolvido novas práticas de pesquisa, muitas disciplinas que até então eram consideradas incomunicáveis, considerada a distância entre seus objetos de estudo, estão sendo reunidas para dar respostas a novos problemas de pesquisa e a questões que uma única disciplina não é capaz de responder.

Entendemos então que a interdisciplinaridade exige algo mais do que uma simples interação de disciplinas. Como diz Rios (1995,pág.131):

 

Trago assim, a proposta da construção de uma competência coletiva. De proporcionar a ocasião para a competência do outro, para que a competência dele reafirme, ou possa criar espaço para a minha competência….Na afirmação do caráter coletivo da competência é que se ganha espaço para uma discussão sobre a interdisciplinaridade…A minha relação comigo mesma tem sempre como parâmetro a minha relação com os outros, uma vez que ela é marcada pelos valores que se consideram no contexto social em que vivo e desenvolvo a minha prática…

 

A escola é uma pequena mostra do que se vê lá fora. Indivíduos diferentes, com capacidades, culturas, histórias e trajetórias afins. Dentro deste nosso contexto , já temos elementos de sobra pra uma mudança imensa. A começar de nós mesmos. E se pensarmos na interdisciplinaridade, com suas reais intenções, em sua origem, talvez tenhamos um excelente caminho a seguir.

A interdisciplinaridade , de fato deixou uma nova possibilidade para a ampliação do currículo. Possibilita aos educadores musicais o uso da música como elemento integrador de todas as disciplinas. Permite-nos uma oportunidade de diversificar a aprendizagem, inovando o dia a dia da escola. A Interdisciplinaridade aqui proposta foi elemento indispensável para a realização do Projeto realizado na Escola Experimental Inclusiva ,que detalharemos no final deste artigo, tendo como ferramenta principal –a Música. Com a interdisciplinaridade enxergamos uma pedagogia com base nos Projetos . O que veremos a seguir.

 

APRENDIZAGEM POR PROJETOS
Entendemos por projeto de aprendizagem uma pedagogia construtivista que permite a construção do conhecimento de forma espiral, como diz Hernandes e Ventura , (1998,p.38): “ o desenvolvimento curricular se concebe não linearmente e por disciplinas, mas pelas interações em espiral”. Tem como propósito promover aprendizado profundo através de um enfoque baseado em indagações para engajar os alunos com questões e conflitos que sejam ricos, reais e relevantes a suas vidas.

A função do projeto é favorecer a criação de estratégias de organização dosconhecimentos escolares em relação a:1)o tratamento da informação, e 2)a relaçao entre os diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitem aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio. Hernàndes e Ventura(1998.p.61)

O que move então as atividades em um projeto, são as dúvidas e interesses do aluno que consequentemente irão gerar o próprio projeto, pois o interesse em resolver as dúvidas farão parte do processo.

Esta ideia de trabalhar através de projetos é apresentada também nos Parâmetros Curriculares Nacional, documento instituído pelo MEC em 1997.Em seu texto sobre Projetos lemos as seguintes sugestões:

 

O projeto cativa os alunos pela oportunidade de trabalhar com autonomia, tomando decisões e escolhendo temas e ações a serem desenvolvidos sob orientação do professor. Logo, em um projeto há uma negociação entre professores e alunos, que elegem temas e produtos de interesse, passíveis de serem estudados e concretizados. Para que uma unidade didática se configure como projeto é necessário o estabelecimento de algumas ações:• eleição de temas de projetos em conjunto com os alunos;• participação ativa dos alunos em pesquisas e produções de referenciais ao longo do projeto em formas de registro que todos possam compartilhar;• práticas de simulação de ações em sala de aula que criam correspondência com situações sociais de aplicação dos temas abordados – por exemplo, dar um seminário como se fosse um crítico de arte, opinar sobre uma peça apresentada como se estivesse falando para uma emissora de TV em programa de notícias culturais;• eleição de idéias, pesquisas e temas relacionados aos conteúdos trabalhados, com o objetivo de estruturar um produto concreto, como um livro de arte, um filme, a apresentação de um grupo de música. (PCN, 1997, p.103)

 

É bastante interessante estas sugestões e permite aos alunos a oportunidade de liberdade e de autonomia cognitiva.

Hernandes e Ventura (1998), nos instiga, através de algumas experiências vivida por eles, a desenvolver com nossos alunos, uma maneira muito especial de efetivar o currículo interativamente, observando-o sobre um outro olhar, lançando mão dos Projetos Pedagógicos. Realmente realizar uma proposta com base em Projetos é um desafio imenso para nós que temos a visão da educação com foco no aluno, o aluno protagonista, um ser único, construtor de seus conhecimentos e história. Certamente a interdisciplinaridade favorece tal projeto e consequentemente este aluno, mas para compreender isto precisamos ter humildade, e realizar um trabalho em conjunto. Mas este não é um desafio novo e só nosso. Hernandéz apresenta seu projeto aplicado como experiência, em uma escola em Barcelona, e em determinado capítulo ele diz: “nem todos os professores seguiram o processo…”. Realmente encontramos esta dificuldade, da compreensão, ou da coragem de se envolver em tal proposta. Esta é mais uma de nossas lutas: a interdisciplinaridade através de projetos.

 

…os projetos de aprendizagem oportunizam uma maior interação entre professor e aluno,visto que constroi um universo de ações diversificadas que permitem a participação ativa do aluno. Ao longo do trabalho por projetos, o professor desempenha o papel de mediador. Nesse sentido, sua postura de detentor único do saber não existe mais.( Hernández,1998,p.31)

 

Tendo em vista a importância de aprender através da Música, os projetos podem beneficiar o aluno em todos os sentidos , como diz Zagonel(2008,pág.18):

 

A obrigatoriedade do ensino de Arte está plenamente de acordo com os objetivos da educação pregados pela lei nacional. Pelo ensino de Arte, o alunos podem ter estimuladas todas as suas capacidades inteligentes, abrangendo uma ampla variedade de domínios, o que nos leva a pensar em uma educação que não privilegie apenas o desenvovlvimento lógicomatemático, mas o indivíduo no seu todo.

Se os Educadores entenderem que a Pedagogia de Projetos pode ser seu aliado para a efetivação das aprendizagens , muitas serão as vertentes de benefícios. Certamente a consolidação do Ensino Musical seria possível, as aprendizagens seriam melhor conduzidas e sem dúvida os alunos se beneficiariam de forma plena e prazerosa em seu processso de crescimento cognitivo.

Atividades que facilitem um trânsito criativo, fluido e desfragmentado entre as linguagens artísticas podem construir uma rede de interlocução, inclusive, com a literatura e com outros componentes curriculares. Temas, assuntos ou habilidades afins de diferentes componentes podem compor projetos nos quais saberes se integrem, gerando experiências de aprendizagem amplas e complexas. (BRASIL, 2017, p.196)

 

APRENDIZAGENS E INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

 

Em uma série especial sobre as Teorias da aprendizagem, a Revista Nova Escola (Ratier, 2010) apresenta uma síntese das principais teorias, que traz contribuição para a reflexão sobre o significado de algumas teorias das aprendizagens, em um conjunto de 12 reportagens . Desta série , destacamos aqui algumas que explicam, os principais conceitos das concepções construtivista, sociointeracionista da Educação, e outras . O que retomaremos mais tarde. Entendemos aqui que aprendizagem é o processo pelo qual as competências, habilidades, conhecimentos, comportamento ou valores são adquiridos ou modificados, como resultado de estudo, experiência, formação, raciocínio e observação. Este processo pode ser analisado a partir de diferentes perspectivas, de forma que há diferentes teorias de aprendizagem. Aprendizagem se apresenta como uma das funções mentais importantes. Ela está relacionada à educação e desenvolvimento . Deve ser devidamente orientada e é favorecida quando o indivíduo está motivado . Esta característica está presente na teoria da Aprendizagem Significativa.(Ausubel,1963)

Não se trata exatamente de motivação, ou de gostar da matéria. Por alguma razão, o sujeito que aprende deve se predispor a relacionar (diferenciando e integrando) interativamente os novos conhecimentos a sua estrutura cognitiva prévia, modificando-a, enriquecendo-a, elaborando-a e dando significados a esses conhecimentos. (Moreira ,2012, p.8)

O estudo da aprendizagem utiliza os conhecimentos e teorias da neuropsicologia, psicologia, educação e pedagogia. Aprender, no entanto, não significa apenas absorver e assimilar os conteúdos propostos, significa também ser capaz de fazer o que antes não se conseguia, dominar determinado conhecimento que não se dominava. Aprender é, portanto, expandir capacidades, construir competências.

Envolve o contexto social da aprendizagem, a motivação, os estudos e as pesquisas, a ação, um aprendizado ativo, as constantes tentativas, um ambiente de colaboração, autoavaliação, etc…Todos estes elementos são imprescindíveis para o processo de aprendizagem, sobretudo para a apreensão dos conteúdos da Arte.

A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, que caracterizam um modo próprio de ordenar e dar sentido à experiência humana: o aluno desenvolve sua sensibilidade, percepção e imaginação, tanto ao realizar formas artísticas quanto na ação de apreciar e conhecer as formas produzidas por ele e pelos colegas, pela natureza e nas diferentes culturas.(PCN, 1997,p.19)

No contexto da Aprendizagem por Projetos é bom que se faça uma pequena análise sobre as Teorias das Aprendizagens. Denominam-se teorias da aprendizagem, em Psicologia e em Educação, aos diversos modelos que visam explicar o processo de aprendizagem pelos indivíduos. Muitas teorias surgem para nos ajudar a compreender como ocorre o processo de ensino aprendizagem, e aponta-nos caminhos excelentes para o desenvolvimento dos alunos na condução de Projetos Interdisciplinares. E mencioná-las aqui é importante neste momento.

Vamos começar mencionando as idéias de Lev Vygotsky (1896-1934), que traz um estudo interessante sobre a teoria Sócio-interacionista. Seus estudos evidenciam as interações com o outro e com o meio, como desencadeador do desenvolvimento sóciocognitivo e é impulsionado pela linguagem. Para Vygotsky é o processo de aprendizagem que gera e promove o desenvolvimento das estruturas mentais superiores. O conceito que move sua teoria é o conceito da Zona de desenvolvimento proximal (ZDP), ou seja, é a distância existente entre o que o aluno já sabe e aquilo que ele tem potencialidade de aprender. Pensando na questão, as interações têm um papel crucial e determinante, pois sugere ao educador, que se avalie o que o aluno é capaz de fazer sozinho, e o que ele consegue fazer com ajuda de outro sujeito. Assim, vemos que ZDP nos revela a riqueza e diversidade das interações determinantes ao potencial de cada aluno. Quanto mais ricas as interações, melhor será o desenvolvimento.

 

[…] Não há necessidade de sublinhar que a característica essencial da aprendizagem é que dá lugar à área do desenvolvimento potencial, isto é, faz nascer, estimula e ativa, na criança, processos internos de desenvolvimento no quadro das interrelações com outros que, em seguida, são absorvidas, no curso do desenvolvimento interno, tornando-se aquisições próprias da criança… A Aprendizagem, por isso, é um momento necessário e universal para o desenvolvimento, na criança, daquelas características humanas não naturais, mas formadas historicamente. (VYGOTSKY, 1973, p. 161)

 

A Epistemologia Genética é a teoria do desenvolvimento da inteligência desenvolvida pelo biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) com base em experiências com crianças a partir do nascimento até a adolescência, Piaget postulou que o conhecimento é construído através da interação do sujeito com seu meio, a partir de estruturas existentes. Assim sendo, a aquisição de conhecimentos depende tanto das estruturas cognitivas do sujeito como da relação dele, sujeito, com o objeto. Para Piaget, o desenvolvimento humano obedece certos estágios. São eles:-Estágio sensório motor (do nascimento aos dois anos),-Estágio pré-operatório (dos dois aos seis anos), Estágio operatório-concreto (dos sete aos onze anos),-Estágio operatório-formal (dos onze aos dezesseis anos). Assim Piaget observou que, para que ocorra a construção de um novo conhecimento, é preciso que se estabeleça um desequilíbrio nas estruturas mentais, isto é, os conceitos já assimilados necessitam passar por um processo de desorganização para que possam novamente, a partir de uma perturbação se reorganizem, estabelecendo um novo conhecimento. Este mecanismo pode ser denominado de equilibração das estruturas mentais, ou seja, a transformação de um conhecimento prévio em um novo.

[…] pesquisa essencialmente interdisciplinar que se propõe estudar a significação dos conhecimentos, das estruturas operatórias ou de noções, recorrendo, de uma parte, a sua historia e ao seu funcionamento atual em uma ciência determinada (sendo os dados fornecidos por especialistas dessa ciência e sua epistemologia) e, de outra, ao seu aspecto lógico (recorrendo aos lógicos) e enfim à sua forma psico-genética ou às suas relações com as estruturas mentais (esse aspecto dando lugar às pesquisas de psicólogos de profissão, interessados também na Epistemologia). (PIAGET, 1977, p. 77).

Um outro conceito de aprendizagem muito difundido entre os educadores é o conceito da Aprendizagem Significativa . Se refere ao conceito central da teoria da aprendizagem de David Ausubel (1918-2008).

Aprendizagem significativa é aquela em que ideias expressas simbolicamente interagem de maneira substantiva e não-arbitrária com aquilo que o aprendiz já sabe. Substantiva quer dizer não-literal, não ao pé-da-letra, e não-arbitrária significa que a interação não é com qualquer idéia prévia, mas sim com algum conhecimento especificamente relevante já existente na estrutura cognitiva do sujeito que aprende.(Moreira,1982,p.2)

Segundo Iavelberg (2003,pág.45) Ausubel “observa a aprendizagem em uma perspectiva lógica e psicológica, apontando que a assimilação de novos conteúdos mobilizam grandes quantidades de conhecimentos prévios do aprendiz”. Percebemos então que para o aluno alcançar uma aprendizagem que lhe seja significativa ,deve haver uma riqueza de conceitos relevantes , que desencadeie a motivação. Os conteúdos conceituais deve ser interessante, novo, surpreendente, criativo e desafiador. Isto permite que o cérebro se abra para a aprendizagem de forma significativa, não bloqueando as informações. Conforme o aluno vai se envolvendo afetivamente com os conteúdos estudados, as barreiras vão sendo superadas e a aprendizagem vai sendo consolidada.

Quando falamos em aprender com Música é relevante pensar no potencial criativo de cada aluno, e este fato nos reporta a Teoria das Inteligências Múltiplas que tem mobilizado os estudiosos sobre as questões das habilidades dos indivíduos. Denominasse inteligências múltiplas à teoria desenvolvida a partir da década de 1980 por uma equipe de investigadores da Universidade de Harvard, liderada pelo psicólogo Howard Gardner (1998.p.9), buscando analisar e descrever melhor o conceito de inteligência. Alguns critérios foram estabelecidos para identificar nos alunos diversos tipos de habilidades. Estabelecidos os critérios abordados pelas pesquisas, identificou-se e descreveu-se sete tipos de inteligência nos seres humanos. Posteriormente foram acrescentadas as inteligências “naturalista” e “existencial”. Originalmente foram observadas: Lógico-matemática, Linguística, Musical, Espacial, Corporal, Intrapessoal, Interpessoal.(Gardner,1998,p.10)

Ampliaremos aqui a Inteligência Musical sobre o aspecto de seu favorecimento as aprendizagens.

A criança é um ser essencialmente musical, cabe à escola possibilitar e garantir a afloração dessa qualidade através da competência pedagógica e eficiência didática. (Suzigan e Suzigan, 1986,p.1)

As teorias aqui abordadas podem ajudar muito a aprendizagem sob a perspectiva do Ensino da Música , tendo em vista que estratégias musicais valorizam os alunos com suas potencialidades, habilidades e diversidade. Encontramos em sala, expectativas afins, e por isso é de grande importância que todos os envolvidos com a educação destes discentes, estejam conectados aos saberes diversos sobre a aprendizagem, e sobretudo estarem abertos às inovações necessárias ao processo, favorecendo uma aprendizagem real, desafiadora e significativa.

…a capacidade cognitiva é específica para o domínio e as pessoas precisam ser expostas à materiais e informações de diferentes domínios antes que suas capacidades e potenciais cognitivos possam ser adequadamente avaliados. (Gardner e Feldman,2001.p.10)

 

CRIATIVIDADE

Depois de observarmos os diversos aspectos inerentes ao Aprender através da Música, faz-se necessário mencionar um elemento indispensável: a criatividade.

Por muito tempo, as escolas não tiveram a preocupação com a criatividade como coadjuvante em sala de aula. Com os métodos tradicionais de ensino, faltava espaço para que os alunos se expressassem e tivessem a oportunidade de criar.

No Ensino Fundamental, o componente curricular Arte está centrado nas seguintes linguagens: as Artes visuais, a Dança, a Música e o Teatro. Essas linguagens articulam saberes referentes a produtos e fenômenos artísticos e envolvem as práticas de criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas. A sensibilidade, a intuição, o pensamento, as emoções e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em Arte. (BNCC,2018,P.193)

Com a valorização do Ensino da Arte, começamos então a observar estudos sobre o tema, fazendo com que os educadores abrissem espaço para estas manifestações. Ao estudar a vida dos compositores e suas expressões musicais, possibilita-se ao aluno a observação deste elemento tão importante para a aprendizagem, principalmente se olharmos pela perspectiva das teorias da aprendizagem.

A criatividade é considerada uma capacidade humana de grande valor universal. Com os estudos da artista Fayga Ostrower (2008), firmou-se a ideia de que todo ser humano tem o seu potencial criativo, que pode ser desenvolvido, envolvendo percepção, intuição e imaginação. Prova disso é a própria capacidade de sobrevivência nata dos indivíduos, diante de um mundo tão cheio de desafios.
As ideias de Fayga tem influenciado grandemente muitos educadores, proporcionando às escolas a integração de programas e projetos envolvendo a música, tendo como desencadeador “a criatividade”. É entretanto na capacidade criativa, que existe a chave da capacidade de evolução da humanidade.

O mérito da expressão criativa é fruto da “complexidade”, ou seja, é fruto do contexto social no seu desenvolvimento natural e humano. É muito interessante contemplar os efeitos provenientes disto, considerando a capacidade de um indivíduo criativo construir e reconstruir, transformando às realidade. Como diz Fayga (2008,p.10): “…O homem cria , não apenas porque quer, ou porque gosta, e sim porque precisa; ele só pode crescer enquanto ser humano, coerentemente, ordenando ,dando forma, criando”. É gratificante, perceber que todos temos a capacidade criativa, o que falta, é ser melhor desenvolvida. A criatividade representa-se de múltiplas maneiras. Segundo Gardner (2001,p.10) cada individuo, também apresenta o seu perfil criativo distinto. O fenômeno criatividade se manifesta em todos os setores da vida seja social, político, estético, científico, mas sobretudo é imprescindível que a escola dê oportunidade aos envolvidos no processo escolar, valorizando as potencialidades, estimulando as habilidades, desencadeando uma trajetória criativa para cada indivíduo.

Gainza (1961) em seu artigo, Série Diálogos com o Som – Vol. 2, p.65, coloca:

Nela, (a música) fundem-se o afetivo, a sensibilidade, com o cognitivo, a curiosidade científica e criadora. As técnicas de improvisação introduzidas ao longo de todo o processo de educação musical contribuem para a realização da tão mencionada integração do fazer com o sentir e o pensar. À pedagogia contemporânea interessam tanto os processos como as metas; a música, além de arte e ciência, é uma linguagem cujo domínio se adquire paulatinamente através de um desenvolvimento dialético no qual  a improvisação constitui um recurso de grande transcendência e eficácia.

 

FALANDO EM MÚSICA E INCLUSÃO

 

A inclusão de alunos portadores de necessidades especiais, é um outro desafio encontrado em sala de aula, tendo em vista os dispositivos legais que nos deparamos atualmente. Apesar de por anos a fio nos já enfrentarmos casos de alunos com imensas dificuldades em sala, hoje este número cresce e as necessidades de oferecer uma aprendizagem eficaz para estas crianças são eminentes.

Em relação ao número de crianças e de adolescentes com deficiências matriculados em escolas no nível fundamental é constatado a cada ano um aumento, de acordo com dados do INEP em 2005. O que se percebe é que nos anos de 2003, 2004 e 2005 houve um avanço significativo das matrículas desses alunos, sendo que esse avanço demonstra a necessidade urgente de providências quanto à inclusão das crianças com deficiência nas escolas regulares e, principalmente, de preparar estas escolas, pedagogicamente, espacial e organizacionalmente, para inclusão real das crianças.(Kasper,et al , 2006,p.233)

 

Quando pensamos em Inclusão encontramos que o exercício da criatividade não está negado ao deficiente. Quando o professor acredita firmemente nas potencialidades de desenvolvimento do educando, por mais restritas que sejam, se lhe é dado um apoio e estimula-se a liberdade para a realização da tarefa, os resultados somente confirmarão a necessidade universal que tem todo o ser humano de participar de maneira ativa e pessoal de seus próprios processos de crescimento. As práticas criativas em sala de aula não tem objetivo de se formar um expert musical. Pelo contrário: favorecem o estabelecimento de uma relação pessoal e positiva com as aprendizagens através da música e contribuem para trazer maior riqueza e abertura ao desenvolvimento da sensibilidade, do repertório, não só musical , mas fortalecem as relações com uma infinidade de outros conhecimentos interdisciplinares. E quando falamos em portadores de necessidades especiais , a música ampliará as ´possibilidades deste aluno. A Música também pode favorecer o desenvolvimento emocional de pessoas com necessidades especiais, a conscientização de si mesma, o despertar de emoções e da espontaneidade, favorecendo, inclusive, a integração social e emocional, entre outras coisas.

Como ressalta Soares(2004, p.1): “Isso significa que todos são capazes de aprender a se expressar musicalmente, não havendo razões para a exclusão”

Como aliada neste processo de Inclusão encontramos a Neurociência . Neurociência é o estudo do sistema nervoso, isto é, sua estrutura, seu desenvolvimento, sua evolução, seu funcionamento, sua relação com o comportamento e a mente, como também, suas alterações. A partir da compreensão das funções neurológicas, pode-se compreender melhor certas patologias, criar novas intervenções terapêuticas e potencializarmos o aprendizado (LENT, 2010). Não é de hoje que cientistas voltam-se para tentar compreender o fenômeno musical no cérebro e quais impactos neurológicos a música oferece àqueles que a estudam, pois esta arte é um das poucas atividades que utilizam praticamente todo nosso aparato neurológico (NAVIA, 2012).

No que à música diz respeito, esta tem uma importância significativa na inclusão dos alunos com Necessidades Educativas Especiais, uma vez que é na escola inclusiva que os alunos podem vivenciar a música e aprendê-la de uma outra forma, criando um grande grau de motivação para a aquisição de conhecimentos musicais. São estes conhecimentos adquiridos dentro da sala de aula que irão permitir que o educando, num futuro próximo, possa agarrar oportunidades numa área que até ali era desconhecida. Sadie apud Bréscia ( 2003, p.50) afirma que:

…crianças mentalmente deficientes e autistas geralmente reagem à música, quando tudo o mais falhou. A música é um veículo expressivo para o alívio da tensão emocional, superando dificuldades de fala e de linguagem. A terapia musical foi usada para melhorar a coordenação motora nos casos de paralisia cerebral e distrofia muscular. Também é usada para ensinar controle de respiração e da dicção nos casos em que existe distúrbio da fala.

O ensino da música na escola inclusiva torna-se assim bastante importante na medida em que essa aprendizagem se refletirá para o resto da sua vida. Gainza (1988, p.22) ressalta que: “A música e o som, enquanto energia, estimulam o movimento interno e externo no homem; impulsionam-no „a ação e promovem nele uma multiplicidade de condutas de diferentes qualidade e grau”. Para o aluno com Necessidades Educativas Especiais esta aprendizagem, através de vivências, proporciona-lhe uma melhor relação com o outro e com o Mundo, uma vez que lhe possibilita partilhar as suas experiências musicais, ou outras, com o grupo no qual está inserido. No que a música diz respeito esta troca de conhecimentos permite que o aluno experiencie outras culturas musicais, aumentando assim o seu leque de conhecimento de cultura musical.

Por observação e imitação, os demais alunos aprendem e passam a vivenciar essa experiência, tornando-a parte de suas vidas. “Pitágoras demonstrou que a sequência correta de sons, se tocada musicalmente num instrumento, pode mudar padrões de comportamento e acelerar o processo de cura” (BRÉSCIA, p. 31, 2003).

Mas não só na parte educacional que a música terá efeitos visíveis na criança com Necessidades Educativas Especiais. Também a nível pessoal e social esta terá o seu impacto, pois a música é capaz de mexer com sentimentos, estados de espirito, com a memória e a concentração. Todos estes são elementos vitais para o ser Humano e para a sua adaptação ao meio em que está inserido. A música pode contribuir para tornar esse ambiente mais alegre e favorável à aprendizagem, afinal :

“propiciar uma alegria que seja vivida no presente é a dimensão essencial da pedagogia, e é preciso que os esforços dos alunos sejam estimulados, compensados e recompensados por uma alegria que possa ser vivida no momento presente” (SNYDERS, 1992, p. 14)

Trabalhar com crianças com NEE é realmente um grande desafio, e cada passo dado é uma conquista feita, porque naquele momento o professor consegue transmitir algo ao seu aluno. Seja qual for o resultado da atividade proposta pelo educador, qualquer sorriso e qualquer expressão de felicidade já é compensadora na medida em que por momentos conseguimos proporcionar um grande momento a um aluno com Necessidades Educativas Especiais.

“[…] o aprendizado de música, além de favorecer o desenvolvimento afetivo da criança, amplia a atividade cerebral, melhora o desempenho escolar dos alunos e contribui para integrar socialmente o indivíduo”. Bréscia (2003, p. 81)

 

MÚSICA E MOVIMENTO

 

Importante salientar que o movimento é a primeira manifestação na vida do ser humano. Pois desde a vida no útero realizamos movimentos com o nosso corpo, na qual vão se estruturando e exercendo enormes influências no comportamento. Os movimentos expressam o que sentimos, nossos pensamentos e atitudes que muitas vezes estão arquivados em nosso inconsciente. Através da ação sobre o meio físico com o meio social, processa-se o desenvolvimento e a aprendizagem do ser humano. Portanto, a educação psicomotora na idade escolar, sobretudo as que envolva a música, deve ser antes de tudo uma experiência ativa, onde a criança se confronta com o meio. As educações provenientes dos pais e do âmbito escolar não tem a finalidade de ensinar a criança comportamento motores, mas sim permite exercer uma função de ajustamento individual ou em grupo.

…a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo…(BNCC,2014,41)

As atividades desenvolvidas no grupo favorecem a integração e a socialização das crianças com o grupo, portanto, propiciam o desenvolvimento tanto psíquico como motor. A estimulação do desenvolvimento psicomotor é fundamental para que aconteça a interação dos movimentos com a emoção e a cognição do indivíduo. Para que essa estimulação ocorra de forma adequada é fundamental que a criança disponha de um bom ambiente e de facilitadores para auxiliar no desenvolvimento das capacidades psicomotoras .
Conforme Luria (1981) durante muitas décadas os psicólogos estudaram o curso dos processos mentais: de percepção e memória, de fala e pensamento, da organização de movimentos e ações. Daí surge o interesse científico no estudo do cérebro como o órgão da atividade mental. Sabe-se que o cérebro humano, é o mais requintado dos instrumentos, capaz de refletir as complexidades e os emaranhamentos do mundo ao nosso redor. Segundo o autor, o estudo acurado desses fenômenos, no contexto das ciências comportamentais, forneceu informações de valor inestimável e revelou importantes pistas para o esclarecimento da natureza das leis científicas que governam esses processos.

Gonçalves (2010, p.87), afirma que “O corpo como porta de entrada e saída da aprendizagem, utiliza-se da psicomotricidade para expor toda a transcendência de sua experiência.”

Sobre as fases do desenvolvimento psicomotor, Silva (2010) diz que não devem ser consideradas somente como uma maturação neurológica, sim, como um processo relacional. Levando em consideração as relações do indivíduo com o ambiente em que está inserido e as relações com os demais. As fases do corpo podem ser resumidas em três fases até chegar a perfeição; primeiro o corpo é percebido; em segundo, é conhecido; e, finalmente, é vivido. Ressaltando a observação das características de cada fase de desenvolvimento físico da criança.

Dentre as diversas atividades propostas nas aulas de educação musical, o reconhecimento das partes da música é trabalhado auditivamente, seja ouvindo ou cantando e por meio de dinâmicas psicomotoras. A vivência corporal torna o processo de musicalização dinâmico e significativo . A música não é tratada como um elemento exterior, mas é sentida, vivenciada e executada. Melodia, ritmo e bases psicomotoras são trabalhados concomitantemente e tanto o desenvolvimento das bases como o entendimento musical se consolidam aos poucos.

O uso da música para fins terapêuticos data de tempos ancestrais e apoia-se na capacidade da música de evocar e estimular uma série de reações fisiológicas que fazem a ligação direta entre o cérebro emocional e o cérebro executivo. A música estimula a flexibilidade mental, a coesão social fortalecendo vínculos e compartilhamento de emoções que nos fazem perceber que o outro faz parte do nosso sistema de referência.(Muskat,2000,p.69)

Se o uso da linguagem influencia diretamente o desenvolvimento do pensamento, o mesmo pode acontecer com o desenvolvimento musical. O uso da linguagem musical vai contribuir diretamente para o desenvolvimento musical da criança, tornando-a cada vez mais capaz de se expressar musicalmente.

A psicomotricidade nos ajuda a perceber a criança e a sua expressividade através do corpo em movimento. Podemos então pensar que o desenvolvimento das habilidades musicais e da criação artística na primeira infância, pressupõe uma análise do processo de ensino-aprendizagem não apenas sobre como a criança manipula os sons e os reproduz, condicionando a avaliação do aprendizado musical da criança apenas do ponto de vista sonoro. É preciso considerar a expressividade da criança como um conjunto de movimentos corporais que representam para esta, tanto a sua percepção e entendimento da música, como a sua criação e comunicação musical. Isto é, a criança não se expressa por um único “canal”. Por exemplo: espera-se que a criança que aprende música se expresse musicalmente, isto é, através dos sons, seja cantado ou tocando. Mas para a criança que ainda está no processo de desenvolvimento das habilidades motoras, principalmente as habilidades para tocar um instrumento (técnica), talvez ela ainda não seja capaz de canalizar toda a sua expressividade através da produção sonora, ficando a sua expressão criativa dispersa em um conjunto de movimentos corporais (dança, mímica, caretas, etc.). A avaliação do grau de expressividade da criança, e consequentemente do aprendizado musical, pode não estar apenas no resultado sonoro, mas em um conjunto de gestos e movimentos que a criança faz ao tentar se expressar musicalmente. É preciso trabalhar todos os elementos da música, mas compreender o processo de desenvolvimento musical como gradativo. Sendo assim, a Teoria em espiral de Swanwick (Swanwick, 1988, apud Fernandes,1998), por estar de acordo com o próprio desenvolvimento infantil pode ser abordado também sob a perspectiva da psicomotricidade que pode contribuir justamente com sua fundamentação prática a partir da intervenção direta no desenvolvimento das capacidades psicomotoras da criança principalmente em atividade escolar. Ou seja, trazer atividades psicomotoras para ajudar a criança no seu próprio processo de desenvolvimento musical em favor do seu desenvolvimento global. A relação entre psicomotricidade e música está tanto na forma de apreensão como de expressão. Música enquanto arte e os movimentos psicomotores para conexão : mente e corpo no desenvolvimento humano. A criança apreende o conhecimento musical e se expressa musicalmente de forma única, externalizando o seu pensamento e construindo sua própria identidade frente ao mundo em que vive.

NA PRÁTICA

Com esta síntese teórica feita até aqui, podemos nesta altura trazer um pouco da experiência feita na “Escola Experimental Inclusiva” . Na sala de aula com as crianças todo esse tramado ganha corpo, substância. É pela experiência – vivida, compartilhada e observada – que se potencializa, capaz de produzir conteúdos, sentidos e significados. Disponho nesta etapa algumas das experiências vividas. E das observações e pensamentos entretecidos por tamanho desafio. Experiência de caminhos percorridos, vividos, encarnados, e, portanto da ordem do real, e não do ideal. E que não foram viamente definidos e estabelecidos, embora sempre planejando, preparando aulas, se preparando para as aula, com boas intenções, expectativas e muitos, desejos.

Com base então em todos estes estudos , a escola que chamamos aqui “Escola Inclusiva Experimental”, tem desenvolvido sua prática pedagógica com a realização de valiosos projetos pedagógicos. Iniciamos o ano 2019, avaliando às expectativas dos alunos, observando que tanto os alunos quanto os professores, apresentavam anseios por um projeto desafiador, algo que os instigasse, os impulsionasse às descobertas. Um projeto que permitisse atividades interessantes, prazerosas e com resultados significativos, sobretudo que trouxesse equalização para os saberes, fortalecendo o desenvolvimento das crianças seus vários aspectos, seja cognitivos, emocional, físico, ou social.

A “E.E.Especial” funciona como Ensino Complementar, em horário inverso da Escola Regular , atendendo crianças Portadoras de Necessidades Especiais como ; TDAH, TEA, TOD , Síndrome de Down, Surdos, Deficiente Intelectual, Paralisia Cerebral, etc… A escola atende estas crianças com uma equipe multidisciplinar : ProfessorPedagogo Polivalente com reforço das disciplinas-Matemática e Português; Especialistas de Saúde: Fonoaudiólogo, Terapeuta Ocupacional, Fisioterapeuta, Psicopedagoga e Especialistas de Educação : Professor de Educação Física, Professora de Artes/Música.

Tendo em vista o interesse dos alunos com as Aulas de Artes e Música, decidiu-se então realizar um Projeto Interdisciplinar que chamamos de “As linhas Sonoras de Miró”, com o objetivo de conectar as Obras de Artista com a Música . Projeto este que envolveu toda equipe de pedagogos, especialistas de Educação e de Saúde.

Em reuniões pedagógicas realizadas durante o ano ,os professores, psicopedagogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional , foram envolvidos e desafiados a desencadear diferentes conduções , com a participação dos alunos , para trabalhar dentro de suas respectivas áreas , tendo o cuidado de conectar cada atendimento aos elementos propostos pela música. Observamos então o benefício das estratégias envolvendo a Música. Assim, cada profissional realizou seus planejamentos fazendo estas observações, analisando o Conteúdo Programático do Ano, elaborando um Plano Curricular, envolvendo os Eventos, abordando assuntos de interesse dos alunos e respectivas famílias, tendo em vista que se trata de crianças portadoras de necessidades especiais. Com o projeto foi possível evidenciar os potenciais de nossos alunos apesar de suas dificuldades, proporcionando possibilidades para que os alunos demonstrassem sua sensibilidade através da arte, sobretudo a música.

Diversas atividades realizadas foram realizadas coletivamente, nas Semanas Comemorativas. Nestas semanas trabalhamos diversas atividades musicais de interação e socialização . As atividades coletivas são planejadas multidisciplinarmente, proporcionando a interação entre as crianças, fortalecendo a cooperação, a superação das dificuldades, ajuda mútua, o desenvolvimento da linguagem oral e corporal.

Segundo Viviane Louro (2016,p.43) , em seu artigo sobre Música e Educação, diz que Perrenoud (2002) valoriza a importância do professor assumir um compromisso crítico no debate social sobre a finalidade da escola e seu papel na sociedade, com vistas a aprender a trabalhar cooperativamente na escola e dialogar com família e comunidade. Sendo assim, temos que prestar a atenção para um item fundamental, sem o qual não é possível promover a inclusão: o trabalho em equipe. Quando se fala em inclusão, dialogamos diretamente com a necessidade de um trabalho baseado numa rede de apoio de diversos profissionais. Cada deficiência traz particularidades muito específicas e, para cada uma delas, será necessário um tipo de apoio, de intervenção, de material ou de metodologia e, às vezes, a colaboração de profissionais da saúde. Por exemplo, pessoas com autismo, têm muita dificuldade no desenvolvimento da Teoria da Mente, que “é o nome que se dá à maneira como sentimos e entendemos a mente dos outros. Ela é fundamental para a compreensão do processo pelo qual entendemos as próprias emoções e as emoções dos outros” (CAIXETA, 2005, p. 7)

Durante todo o processo víamos a maneira desafiadora, em que a comunidade escolar, interagia com as propostas: desde os pais, alunos, professores, diretores, equipe de manutenção, secretaria … É bastante interessante observar tais membros buscarem conhecer os assuntos trabalhados para poder cooperar. Entendemos assim que, o encantamento pela Arte/musica vem da oportunidade, da acessibilidade oferecida a cada um. Depende de nós, Educadores e apaixonados pela Arte/Música e pelo conhecimento da mesma, em tentar promover esta oportunidade. Temos infinitas razões para se trabalhar com Arte na escola. Como diz Barbosa (2003,pag.18):

“…Por meio da Arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade analisada.”

O envolvimento dos professores das diversas disciplinas, níveis e séries é o que mais nos surpreendeu. Neste aspecto enfrentamos um precioso desafio: dúvidas, desgastes, desentendimentos, discussões, impasses, conflitos, revisões, retomadas. Porém insistíamos o tempo todo pra que não perdêssemos o objetivo do projeto que era conectar a Música com as demais disciplinas em benefício da aprendizagem. O que nos faz lembrar do que Terezinha Azerêdo Rios(2006,pág.131) diz: “Na afirmação do caráter coletivo da competência é que se ganha espaço para uma discussão sobre a interdisciplinaridade”.

A cada evento realizado tínhamos reuniões para compartilhar os trabalhos com os demais colegas, discutindo sobre as devidas conexões. Nestes momentos aproveitávamos para trocar informações, experiências e compartilhar as respectivas atividades e discutir as avaliações feitas através de questionários respondidos pelos familiares , alunos e equipe escolar. Assim caminhamos, trabalhando todos os eventos da escola buscando não perder o foco, as metas e os objetivos.

No que diz respeito a fala, comunicação, linguagem o Fonoaudiólogo6 M. da escola, diz que muitos são os casos de Gagueira que prejudicam as aprendizagens dos alunos. Gagueira é um dos Transtornos de Fluência, enquadrados dentro do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) como transtornos de comunicação. A fluência é o aspecto de produção da fala que se refere à continuidade, suavidade e esforço. Fluência é definida como a fala de fluxo contínuo e suave, que é decorrente de uma integração harmônica entre os processamentos neurais envolvidos na linguagem e no ato motor. A gagueira, o transtorno de fluência mais comum, é uma descontinuidade no fluxo de fala caracterizada por repetições (sons, sílabas, palavras, frases), prolongamentos de som, blocos, interjeições e revisões, o que pode afetar a velocidade e o ritmo da fala. Essas disfluências podem ser acompanhadas por tensão física, reações negativas, comportamentos secundários e evitação de sons, palavras ou situações de fala. A Gagueira tipicamente tem suas origens na infância. A maioria das crianças que gaguejam, começam a fazê-lo em torno de 2 anos e meio de idade. Aproximadamente 95% das crianças que gaguejam começam a fazê-lo antes dos 5 anos de idade. Ao trabalhar com música em seus atendimentos, M. observou que o uso dos instrumentos de percussão , propicia o movimento do corpo e exercita o exercício rítmico do cérebro , ajudando a trazer também ritmo para o pensamento e consequentemente para a execução da fala. Nas aulas específicas de Artes/Música , o uso dos instrumentos de percussão convencionais e não convencionais são utilizados em todas as nossas aulas. Criando uma rotina envolvendo a integralidade das artes, vamos colocando os conteúdos das Artes Visuais, do Teatro, da Dança e da Música.

As atividades físicas realizadas junto ao Fisioterapeuta e a Educação Física também foram potencializadas com o uso da música , demonstrando um bom efeito sobre os resultados alcançados. Muszkat diz:

A atividade musical mobiliza amplas áreas cerebrais, tanto as filogeneticamente mais novas (neocórtex), quanto os sistemas mais antigos e primitivos como o chamado cérebro reptiliano, que envolve o cerebelo, áreas do tronco cerebral e a amígdala cerebral, além disso, \a experiência musical modifica estruturalmente o cérebro, pois vários circuitos neuronais são ativados pela música. (Muskat ,2012,p.68)

Em Eventos com as Famílias , a E.E.Inclusiva propôs uma Oficina com Atividades Musicais e as famílias puderam vivenciar atividades realizadas pelas crianças no dia – a dia escolar.

Integralizando as Linguagens da Arte, com potencialidade na Música, introduziu-se alunos o Conceito da Linha que integra a Linguagem da Dança, das Artes Visuais e da Música. Com a Música “As quatro Estações” de Vivaldi, trabalhamos a escuta e a criação de passos de dança conforme o pulso da música. Foi possível potencializar o equilíbrio, a condução do corpo no espaço , a concentração e ainda as funções executivas do cérebro , reforçando o auto controle. A música também está ligada com o movimento.

Conforme Louro (1982), Jourdain (1998, p. 408) interpreta que: “usamos nossa musculatura para representar a música, modelando as características mais importantes dos padrões musicais através de movimentos físicos, grandes e pequenos”. A autora fala também, que Lent (2010) aponta que o sistema motor é algo complexo, pois envolve movimentos voluntários e involuntários. Quando se fala em música e movimento, isso remete automaticamente aos neurônios espelhos, que são um grupo de neurônios recrutados quando se age ou se observa a mesma ação executada por outra pessoa.

Muito interessante se torna o momento em que desafiamos as crianças a comporem suas próprias produções e oportunizamos o compartilhamento destas produções com os demais envolvidos na atividade. Não é por se tratar de crianças com Necessidades Especiais, que não tem a possibilidade de criar, muito pelo contrário. São extremamente criativos, e apresentam um desejo bastante pertinente a criações interessantes.

Neste tempo é muito importante a sensibilidade dos profissionais envolvidos com as crianças , pois cada deficiência vai requerer um tipo de ação e recurso distinto. Por isso a importância do trabalho em equipe, do envolvimento do professor de música em todo o processo pedagógico do aluno; e, principalmente, a importância de conhecer bem a história e deficiência de cada um, pois é a partir desta interação , que se procederá positivamente em favor desta criança.

Alguns casos específicos nos chamou bastante atenção durante a realização deste projeto. Uma aluna com TEA, 10 anos, apresentando grande dificuldade de compreensão, fala e movimento do corpo bastante comprometido. Precisa de ajuda para se locomover e cognição também bem comprometida; no decorrer do ano percebemos que o som que fazia constantemente estava se transformando em melodia, isto é, quando ela começava a fazer um determinado som , que ate então era constante e contínuo, com a interferência de uma canção , ela parava , ouvia e depois acompanhava a melodia que estávamos cantando. Este caso está sendo um estímulo para um novo estudo, pois traznos alguns questionamentos. Se esta aluna consegue fazer uma melodia , por que não consegue falar? Será que através da melodia , ela conseguirá aprender a falar? Ou pelo menos se comunicar? Eis aí algo que desejamos estudar e entender para seguir conduzindo o desenvolvimento desta criança.

Outro caso também, que seguimos estudando é de um aluno de 9 anos, com Síndrome de Down , não fala, ainda não consegue escrever, cognição ainda em grande defasagem, mas, gosta muito da música. Em nossas aulas, ele faz um murmúrio acompanhando todas as canções. Quando pega o instrumento , vai até o espelho e imita um cantor, se observando com alegria.

Este é um breve relato de algumas das muitas atividades que realizamos durante o ano. O tempo não nos foi suficiente para aprofundar nossas pesquisas e nossas práticas. Certamente precisaremos dar continuidade a esta adorável tarefa. Faremos uma vírgula nesta proposta, com a intenção de em breve seguirmos nossas pesquisas, utilizando a música como uma ferramenta elementar.

Realizar um projeto como este não é coisa fácil. Surgem diariamente diversas intercorrências e instigações, sobretudo neste contexto de Inclusão. Porém, acreditamos que esta experiência com a música trouxe uma nova visão para nossa prática escolar. Certamente nosso planejamento, nossas perspectivas já não serão mais as mesmas. A partir desta experiência com a música , deixaremos “àquela” limitação, aquele trabalho ”mesmo”, e nos permitiremos ampliar as ações em favor de uma aprendizagem diversa, interativa, multicultural e….significativa.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A cada leitura feita para corroborar as experiências vividas pela escola com certeza não são suficientes, pois o que foi vivenciado ali, foi muito além do que podíamos imaginar. Conduzir aprendizagem e inclusão tendo a Música como mediadora é algo desafiante, intrigante… Desperta em cada um de nós vislumbres afins. A cada passo do Projeto sentíamos a necessidade de ampliar as ações, pois um leque de possibilidades abria-se a nossa frente. E isto se repetiu quando começamos a buscar as pesquisas teóricas. Uma quantidade imensa de estudos , leituras, pesquisas, surgiram para favorecer as respectivas comprovações. Percebemos então que este estudo não poderia se conter apenas neste artigo. Este tema merece um olhar contínuo. A aproximação da prática e da teoria é possível, portanto ainda não definitiva. Faz-se necessário a continuidade das pesquisas, para que ocorra maior conscientização por parte dos envolvidos, nas execuções de tais projetos.

Em todo o processo de construção e execução deste , observou-se um retorno bastante positivo, por parte de todos os envolvidos. Como estudamos sobre as aprendizagens, constatamos que aprender através da Música, proporciona uma profunda interação com os saberes. A prontidão diante dos conteúdos propostos se amplia, e o aluno apresenta maior interesse, assimilação intensa e a transformação de suas atitudes e de suas iniciativas diante da aquisição do saber. Isto é, observamos uma aprendizagem de fato, significativa.

Os resultados observados não se limitam apenas entre os alunos, mas também entre os demais envolvidos com o Projeto. Percebeu-se que toda a equipe escolar , se apresentavam com maior motivação diante das propostas, participando e cooperando em cada etapa, sentindo-se desafiados, transferindo isto para as famílias e alunos. Vimos isso também nos membros da comunidade. Observamos que toda a comunidade apresentou maior interesse, demonstrando prazer na possibilidade de aprender com os alunos.

Assim, concluímos que tanto através da teoria, quanto da prática, a aprendizagem tendo como mediadora a Música , amplia a visão do que significa aprender, permite a aquisição do conhecimento de maneira prazerosa e plena. E o domínio do saber possibilita a transformação das atitudes, a ressignificação do aprender, e oportunidade de se revelar potencialidades, a criatividade e competências e sobretudo , neste contexto de minimizar os desafios da inclusão.

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JUSSARA SILVA DE SOUSA SILVA – Pedagoga; Licenciada em Artes e Música; Pós Graduada em Arte Educação ; Pós Graduada em  Neuroeducação Musical; Professora de Artes e Música; Desenvolve Projetos de Inclusão com Artes/ Música e  Projetos Interdisciplinares utilizando a Música como mediadora .

 

 

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